MEUrca

abril 4, 2010

(Pra que cabelo? – Parte II)

No final dos anos 30, Queiroz conseguiu um emprego de crupiê no famoso Cassino da Urca. Com o ofício, ganhava apenas o necessário para endividar-se. O emprego foi dado pelo dono do estabelecimento, o empresário Joaquim Rolla, graças à atuação de Queiroz na Revolução Constitucionalista de 1932.  A evento histórico teve o grande empreendedor da Urca como um de seus patronos. Seguindo um dos slogans da campanha paulista, Rolla dizia: “Ouro para São Paulo”. Acabou cedendo aos apelos dos revoltosos e doou a própria mãe à causa. Dona Delgada Rollacão 2000 (Vó Grisalha da Polca) era uma jóia – ainda em estado bruto, é verdade, mas de grande valor sentimental para a família Rolla.

Queiroz destacou-se no front com a função de pombo-correio. O emprego estava garantido por sua dedicação, bravura e, logicamente, por sua rapidez ao escapar das balas que saíam das baionetas do exército getulista. Entre marchas e contramarchas, a batalha durou o período de três meses. O real motivo da revolta não era a defesa da constitucionalização, nem mesmo a petição pela independência da federação, tampouco ambicionavam os líderes do movimento que o estado de São Paulo tivesse um interventor paulista e civil. O que os paulistas queriam, ao invadir a Capital, era em primeiro lugar obter uma autorização do Governo Federal para usarem o que eles chamavam de Frente Única Paulista, em dois tamanhos: PRP (Pequena Real Portentosa) e PD (Pequena Diurna). O outro motivo era que pretendiam morar na própria Capital Federal. Podia ser até mesmo Niterói ou Campo Frio. O governo ofereceu aos paulistas a aprazível cidade de Campos dos Goytacazes, mas a oferenda foi prontamente recusada.

Com o fim do conflito, muitos dos revoltosos foram presos. Entre eles figurava o empresário da urca. Mas J. Rolla era o lúcifer e tinha uma idéia fixa. Deus te livre, leitor, de uma idéia fixa. Ele tinha uma verdadeira obsessão por independência. Assim que chegou ao Rio de Janeiro, começou a liderar um movimento para emancipar o bairro da Urca do restante do país. O  MEUrca (Movimento de Emancipação da Urca) era um tipo de sociedade secreta, que tinha o Cassino como QG para suas reuniões e encontros taciturnos. O empresário Rolla (como era conhecido na intimidade) tinha uma personalidade que misturava Filopêmen com D. Pedro I, passando por Napoleão Bonaparte e findando em Brancaleone.

No entanto, todo movimento – sendo ele secreto ou não – precisa de uma musa. Mas quem poderia ser? O perfil ideal era: ter raízes lusitanas, dó no peito e pequena estatura, mas ser estilizada baiana e namorar com o aplauso. Em uma noite aparentemente calma, uma moça subiu ao palco do Cassino da Urca e cantou o samba “Inconstitucionalissimamente”, de autoria de Hervê Clodovil, que não obteve lá muito sucesso como compositor. Por causa das circunstâncias, foi obrigado a costurar pra fora em sua própria casa no bairro carioca de Cord Ovil.

Carmen, como era conhecida, apaixonou seu Queiroz e a todos os homens presentes no Cassino.  Ela passou a exercer uma incrível influência no ambiente do MEUrca. Era uma espécie de Lady Macbeth do grupo. Queiroz sentia pela moça muito mais do que os quatro diferentes tipos de amor de Stendhal. Seus olhos eram de ressaca, como os de Capitu, e a menina ainda tinha uma mancha amarela junto à íris do olho esquerdo.  A paixão de Queiroz por Carmen era silente, mas, em uma noite chuvosa, quando ela subia a ladeira da Av. São Sebastião, no Bairro da Urca, o careca roubou-lhe um beijo. Ela o amou durante três meses e trinta e cinco contos de réis.

O MEUrca já tinha uma musa e um patrono. Só lhe faltava um rei. O Concílio de Trento se reuniu, em 5 de no novembro 1939,  nos fundos do Cassino da Urca. Os presentes: J. Rolla, Carmen, Queiroz, Roberto Marinho, Grande Otelo, Oscar Niemeyer e Pai Chan-chan, líder religioso que iria dizer, de acordo com o alinhamento dos planetas, quem era o indicado para o trono.  O pai-de-santo fez suas preces e evocou seus caboclos.  O nome do incorporado era Walter Mercado, uma mistura de Casagrande com Hebe Camargo. E WM profetizou:

– O rei virá daqui a 50 anos em uma batalha no maior palco do mundo. O monarca virá da Capital Secreta do Mundo e terá o Espírito Santo.

O exu saiu às escondidas, tal como entrara! Porém, antes de partir, deixou um telefone de contato: 1406. E terminou sua palestra com um sussurro:

– Ligue djá!

No dia marcado, 5 de novembro de 1989, o fato mais esperado do milênio ocorreu. O palco era o estádio Mário Filho; o jogo, Flamengo X Vasco. Apenas duas naquele mar de cem mil pessoas poderiam receber o título de rei. O rubro-negro Marcelo Ribeiro, mais conhecido por Bujica, e o comandante da nau capitania vascaína, o lateral esquerdo – e cantor nas horas vagas – Roberto Carlos. A esquadra dos Gadus era favoritíssima perante o adversário, como sempre em crise. Mas o futebol é de uma simplicidade majestosa. E o jogo de bola sempre revela muito as suas máximas.  Quando o Flamengo tinha a pelota, atacava; quando não tinha, defendia; e,  quando defendia, o clube de remo da Gávea  jogava a bola pra cima, pois enquanto ela estivesse no alto não havia perigo de gol.  Assim o Flamengo marcou dois, ambos de Bujica (o urubu-rei). O Vasco, apenas um.

Reza a lenda que o derrotado veio morar no Bairro da Urca e vive pelos cantos dizendo que é o monarca.

 

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7 Respostas to “MEUrca”

  1. esse post é praticamente uma alcachofra! a gente vai despetalando, molhando na manteiga tostada com pimenta, saboreando et voilá! chega nos espinhos que guardam o coração. Vencidos os obstáculos pré-gozozos, é só cravar os dentes na carninha e hmmmm, gozo para nosso paladar afeito a palavras bem temperadas!

  2. Déia, então virei a Palmirinha Onofre do palavreado! (hahahah)
    Beijos e muito obrigado!!!

  3. m.m. said

    E depois de fazer da meiuca da Urca seu recanto para todo o sempre, foi esquecido entre os azuis da Praia Vermelha e os cocôs do Corcovado, e enrubrecido entre as matas verdes do costão , do alto do seu baudrier, declamava:” Jesus Cristo, Jesus Cristo, Jesus Cristo eu estou aqui !”

  4. Vivian said

    Pra que cabelo?? Seu Queiroz ja ta na moda! Acesse dja!

  5. Chico Alves said

    Dizem que o tal monarca em outras “eras” foi um terrivel pirata que durante muito tempo povoou o imaginário infantil.
    Nas eras mocarlos…

  6. Euler Corradi Silveira Junior said

    Ola, coincidentemente estou finalizando, depois de 5 anos de pesquisa, a biografia do Joaquim Rolla, de onde tirou o seu texto?
    Abraços

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