Seu Queiroz em: confidencias de um inconfidente

julho 15, 2011

Caro Nelson,

Depois de ler, reler e tresler sua crônica Os Irmãos Karamazov, resolvi revelar um segredo quase centenário. Como o Vaticano logrou êxito na beatificação de Karol Józef Wojtyła, não temo mais, em minha careca, os assombros do Sobrenatural de Almeida.

Você esquadrinha:

“Vale a pena voltar a 1911, ou 12, não sei. Como eu dizia, o Flamengo era ainda Fluminense. Eu disse que o Flamengo era ainda Fluminense e já retifico. Antes do futebol, o Rubro-Negro foi remo ou, melhor dizendo, foi ‘domingo de regatas’. Até que, um dia, houve uma dissidência no Fluminense. Eu gostaria de saber que gesto, ou palavra, ou ódio deflagrou a crise. Imagino bate-bocas homicidas”.

Admito, amigo Nelson, a palavra cantada foi minha. A reunião aconteceu em uma Casa de Tolerância na “Faixa do Meretrício”. Tudo caminhava como em uma reunião do PCdoB. Uma verdadeira chacrinha. Mas todos estavam com o semblante plácido e o espírito desarmado. Repito: o espírito. Foi quando cantei a polca “A regata do Mengão sem remo”. Foi o estopim! A reunião virou uma cena de Uma noite na ópera. Nunca vi tanto braço e tanta perna voando. Assim nasceu o Flamengo: com os pés!

Confesso, também, outras pequenas revoluções.

Em 1953, quando morava no morro do Salgueiro, sofri bullying de seu xará Nelson Calça Larga, e fiquei ao lado dele na Unidos do Salgueiro. Anos depois fiz coro com os Acadêmicos do morro.

Também puxei o trem pela “Inconfidência de Madureira”, em 1947 e 1984.  Por imposição da minha senhora, Dona Cris Martini, fui à casa de Tia Eulália acompanhado de Sebastião de Oliveira e o veterano sambista Mano Elói. Formamos a tríade de responsáveis pela fundação do Império Serrano.

Com meus parceiros João Nogueira e Paulo César Pinheiro, fundamos  o Grêmio Recreativo Escola de Samba Tradição. Queríamos fundar uma Escola de samba vencedora. Pois os vinte e um títulos da Portela, sinceramente, eu achava pouco. Lembro também que, na época, consenti  que meu nome ficasse de fora das composições da Escola. Era para dar uma força para os garotos. Mas fui eu que coloquei (no sentido que você preferir) a Luma de Oliveira como rainha de bateria da Escola por dez anos.

Um forte abraço,

Q.

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