Caro Nelson,

Depois de ler, reler e tresler sua crônica Os Irmãos Karamazov, resolvi revelar um segredo quase centenário. Como o Vaticano logrou êxito na beatificação de Karol Józef Wojtyła, não temo mais, em minha careca, os assombros do Sobrenatural de Almeida.

Você esquadrinha:

“Vale a pena voltar a 1911, ou 12, não sei. Como eu dizia, o Flamengo era ainda Fluminense. Eu disse que o Flamengo era ainda Fluminense e já retifico. Antes do futebol, o Rubro-Negro foi remo ou, melhor dizendo, foi ‘domingo de regatas’. Até que, um dia, houve uma dissidência no Fluminense. Eu gostaria de saber que gesto, ou palavra, ou ódio deflagrou a crise. Imagino bate-bocas homicidas”.

Admito, amigo Nelson, a palavra cantada foi minha. A reunião aconteceu em uma Casa de Tolerância na “Faixa do Meretrício”. Tudo caminhava como em uma reunião do PCdoB. Uma verdadeira chacrinha. Mas todos estavam com o semblante plácido e o espírito desarmado. Repito: o espírito. Foi quando cantei a polca “A regata do Mengão sem remo”. Foi o estopim! A reunião virou uma cena de Uma noite na ópera. Nunca vi tanto braço e tanta perna voando. Assim nasceu o Flamengo: com os pés!

Confesso, também, outras pequenas revoluções.

Em 1953, quando morava no morro do Salgueiro, sofri bullying de seu xará Nelson Calça Larga, e fiquei ao lado dele na Unidos do Salgueiro. Anos depois fiz coro com os Acadêmicos do morro.

Também puxei o trem pela “Inconfidência de Madureira”, em 1947 e 1984.  Por imposição da minha senhora, Dona Cris Martini, fui à casa de Tia Eulália acompanhado de Sebastião de Oliveira e o veterano sambista Mano Elói. Formamos a tríade de responsáveis pela fundação do Império Serrano.

Com meus parceiros João Nogueira e Paulo César Pinheiro, fundamos  o Grêmio Recreativo Escola de Samba Tradição. Queríamos fundar uma Escola de samba vencedora. Pois os vinte e um títulos da Portela, sinceramente, eu achava pouco. Lembro também que, na época, consenti  que meu nome ficasse de fora das composições da Escola. Era para dar uma força para os garotos. Mas fui eu que coloquei (no sentido que você preferir) a Luma de Oliveira como rainha de bateria da Escola por dez anos.

Um forte abraço,

Q.

Anúncios

Cabra Cabriola à Queiroz

outubro 26, 2010

Cabra Cabriola à Queiroz

Como ancestral dos índios Goitacá pertencente à família Puri, seu Queiroz, era conspícuo nadador, habilíssimo na corrida e na utilização do arco e flecha e ainda imbatíveis nas técnicas de rastreamento. Valendo-se de suas habilidades indígenas-Magaiverianas, Queiroz, resolveu sepultar, o último fantasma que o assombrava desde os tempos de criança. O mito da Cabra Cabriola. A criatura ataca na calada da noite crianças arteiras. Como era um menino do “cú riscado”, Queiroz tinha pavor do ente. Um pânico apenas comparado, ao trio de ouro mexicano; Chaves, Chiquinha e Quico, em relação à bruxa do 71.

A cabra é uma assombração lusitana que emigrou para o Brasil, com D. João e a família Real. Pois sendo a cabriola uma cabra e não um burro, ela também, saiu de mala e cuia de Portugal, corrida das baionetas de Napoleão. Como não tinha brasão de nobreza, a cabra, teve que procurar uma quitinete nas proximidades da rua a Direita. Mas com o negócio de assombração estava em baixa na colônia, ela foi despejada, sendo assim, obrigada a construir uma morada nas circunvizinhanças da Mata Atlântica.

A esquadra comandada por Américo Vespúcio; para caçar a cabra, ainda tinha Queiroz, O índio Arariboia (vindo diretamente de Niterói, terra boa para criar e procriar paturi), o folclorista Luis da Câmara Cascudo e a baiana tia Ciata.

Depois de três horas de caminhada pela mata o quinteto virou trio. Cansados de ouvir o índio Araribóia dizer:

– vamos à caça “di” uma cabra.

– depois vamos comer na casa “di” Queiroz.

Foi tanto “di”, que o índio apareceu com o corpo crivado de flechas. Como o plano de saúde de Araribóia, O FUNAICARD, não tinha cobertura total, o temiminó foi deixado na porta do BONSU DOR (Hospital Geral de Bonsucesso) e veio a falecer. Cascudo acompanhou o índio no intuito de escrever sobre o índio e desvendar a origem lingüística de “di”, como a dança da pélvis, só em Niterói.

O trio continuou a caminhada até avistar a cabra no capoeirão. A cabra estava com olhar de quem tem tudo na vida; despretensioso e infinito. Vespúcio sacou seu cospe fogo; Ciata cantou para distrair o bicho e Queiroz não viu nada, pois, morre de medo do ente.

Trocaram tanto tiro, que até hoje, ninguém sabe que morreu. A cabra garante que foi Queiroz, mas, Queiroz garante que foi a cabra.

Depois de mais uma longa caminhada; o trio Irakitan das matas brasileiras, aportou na casa da baiana Ciata, que ficava, na rua Visconde de Itaúna, 117 na Cidade Nova. O prato do dia era: Cabra Cabriola à Queiroz.

Na próxima semana:
Cabra Cabriola à Queiroz (Modo de fazer):