Natal da Portela

setembro 24, 2011

 

Na zona sul carioca do final dos anos 50, o que encantava os jovens era o som do mar e da bossa nova. Rapazes e moças exibiam seus corpos dourados durante os dias ensolarados nas praias do Rio. À noite, nos inferninhos enfumaçados, a vestimenta masculina mais comum era o black-tie, muitas vezes acompanhado pela voz sussurrante de João Gilberto. No subúrbio carioca de Oswaldo Cruz e Madureira, trajando paletó de pijama, chapéu na cabeça, cigarro no canto da boca e chinelo charlote, com voz de trovão e sua tradicional “força bruta”, Natalino José do Nascimento, mais conhecido como Natal da Portela, passeava pelas ruas sendo cumprimentado por todos e ouvindo todo tipo de pedido, desde calçamento até obras em igrejas, hospitais e barracos.  Parecia um deputado!

Nascido em 1905, na cidade de Queluz, em São Paulo, Natalino veio para o Rio de Janeiro com três anos de idade. Morou na Cachoeira Grande, entre o Méier e Lins de Vasconcelos. Depois se mudou com a sua família, ainda menino, para Oswaldo Cruz. A casa do pai de Natal, “Seu” Napoleão, vivia apinhada de gente e as rodas de jongo, de pernada e de samba eram constantes. Foi no chalé do Seu Napoleão que Paulo da Portela, Antônio Rufino e Antônio Caetano organizaram, em 1922, o bloco carnavalesco Baianinhas de Oswaldo Cruz, um dos precursores da Portela. Em 1919, Natal havia começado a trabalhar na Central do Brasil  exercendo diversas funções foi condutor, cabineiro e telegrafista. Seis anos depois, perdeu o braço direito num acidente ferroviário, ficando impossibilitado de continuar a desempenhar o seu trabalho.

Natal ficou desmotivado e entrou para o jogo do bicho em 1928. Foi de tudo: Primeiramente como empregado chegando a gerente foi diretor do tricolor suburbano, hoje, Madureira Esporte Clube e presidente da Portela. Natal inaugurou a tríade famosa na cultura carioca: jogo do bicho, futebol e escola de samba.

Sua fama de valente ia longe. E ele gostava de dizer:

– Acho que seria covardia eu ter dois braços!

Certa vez, Natal perguntou ao jovem compositor Monarco:

– Por que você quer ser “direitor” de harmonia ?

Monarco respondeu:

– Mas foi o senhor que me escolheu, Seu Natal. E hoje, com essa chuva toda, não vou nem cantar.

A resposta veio como uma trovoada:

– Agora você vai cantar, nem que eu te “amarrote”.

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O BRASIL PRECISA DE GENTE!

agosto 15, 2011

O BRASIL PRECISA DE GENTE!(*)

Na opinião do autor de tão numerosa prole, o Brasil precisa de gente.

-Vive em Santos (São Paulo) um homem que é pai de 29 filhos, o mais novo conta menos de um ano – o pai dessa numerosa prole – apenas 54 anos.

Chama-se Praxedes Abreu Pinto e é estabelecido na rua Bittencourt nº. 333. Sabedores da proeza do velho Praxedes fomos até a sua casa de negócios onde nós recebeu bem disposto.

– Tenho aqui a certidão de idade de todos. Alguns morreram, mas a maioria está viva e goza de saúde. E já tenho diversos netos.

Praxedes mostra-se feliz com sua numerosa prole, e afirma esperar atingir a marca de trinta.

Julga assim ter cumprido a sua missão. No seu modo de pensar, o Brasil precisa de gente!

Dona Adelaide Abreu Pinto confirmou as declarações de seu marido. E mostrou-se muito satisfeita por ter concorrido para dar ao país 29 brasileiros, dos quais 25 estão vivos e constituem o seu maior orgulho.

(*) Jornal A Noite – 5 de Abril de 1935 – página 5